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| MUCZNIK, Esther, Portugueses no Holocausto, A Esfera dos Livros, 2012 |
Esther Mucznik
apresenta-nos uma obra deveras curiosa, que como indicado no título, não se
refere apenas às acções de Portugal durante este período negro da História,
onde já encontramos outros nomes como Irene Pimentel, Avraham Milgram, Jorge
Martins, entre outros, mas sobretudo sobre os indivíduos portugueses, que de uma forma ou de outra, se viram
abarcados por esta teia de extermínio, quer fosse no lugar de vítimas, executantes,
políticos, diplomatas «desobedientes» ou não, ou simplesmente cidadãos comuns
que se encontraram no lugar certo à hora certa, podendo orientar as suas acções
para uma ajuda humanitária. A narrativa é canalizada bastantes vezes para
exemplos concretos ou testemunhos de pessoas que sofreram na pele, directa ou
indirectamente, os terrores da besta nazi, jogando com um certo sensacionalismo
de modo a apelar aos sentimentos do leitor. Não é perdida de vista a acção
política portuguesa durante todo este período, que por se demarcar por um
legalismo extremo e intransigente, lançou muitos judeus às feras, contudo, não
sendo esse o principal objectivo da obra, esse temática é explorada apenas para
poderem ser abordados alguns casos práticos.

Não tendo Portugal
sido directamente afectado pelo Holocausto, a maioria dos capítulos foca-se em
perspectivas estrangeiras. Cumprindo objectivos divulgativos a autora firma-se
mais em fornecer um plano geral, do que em aprofundar pequenos temas e ao
fundamentar-se no passado distante para explicar consequências recentes, a obra
acaba por nos dar uma perspectiva (bastante sumária, diga-se) da história dos
judeus na Europa. Para isto, um glossário no final, onde são explicados termos
como “Asquenazitas”, “Ladino”, “Sefraditas” ou “Yom Kipur” ajudará bastante a
leitura do público médio, alheio a muitos destes termos, assim como também um
conjunto de fotografias a meio do livro e documentos reproduzidos em anexo
poderão ajudar a uma compreensão visual sobre a temática abordada. Por tudo
isso considero uma leitura pertinente para o grande público, com opiniões de um
modo geral bastante limitadas sobre esta temática, tendendo por vezes a um
enorme desinteresse por ser um episódio que pouca influência deteve na história
nacional – o Holocausto tirou a vida a muitos judeus que só não eram
portugueses devido à expulsão dos seus antepassados em 1497 e ao periodo
inquisitorial (alguns tinham mesmo a nacionalidade), mas se este foi o lado
negro, também existe a outra parte, a de Portugal como local de acolhimento e
meio de salvação de muitas vidas. Em tudo isso se poderá ver que a participação
indirecta de Portugal no Holocausto, não foi por isso menos activa.
Após uma nota
ao leitor explicando as origens do termo “Holocausto” e de uma espécie de
prólogo in media res à maneira de um
filme de terror, onde nos aparecem os dirigentes das SS na Conferencia de
Wannsee em 1942, debatendo o problema da «solução final da questão judaica da
Europa», ou seja do extermínio de 11 milhões de pessoas, Mucznik salta para um
primeiro capítulo onde de uma forma geral é explicada a «evolução» do combate
ao «problema judaico», desde a subida de Hitler ao poder da Alemanha em 1933
até à libertação dos campos de concentração pelas tropas aliadas em 1944 e 1945.
Aqui é-nos dada
uma perspectiva de todo o processo, passando pelas leis de Nuremberga que
retiravam a cidadania alemã e quaisquer direitos aos judeus, pela primeira
manifestação de repressão violenta, imortalizada pelo nome de «Noite de
Cristal» (9 para 10 de Novembro de 1939) e pela tomada da Polónia que ao trazer
um revigorado auto-estima ao governo nazi, também alterou a forma de tratamento
para com os judeus (as humilhações cometidas pelos soldados para com os judeus
polacos, superaram nos primeiros tempos as mesmas cometidas para com os judeus
alemães). Também nos é caracterizado o ponto de vista técnico das formas de
extermínio, desde os fuzilamentos em massa que, entre outros casos aniquilaram
a comunidade judaica da cidade ucraniana de Berditchev, até aos meios mais
sofisticados como camiões com gás e posteriormente câmaras de gás, que ao
afastarem o executor do contacto directo com a vítima, preveniam certos
problemas como transtornos psicológicos por parte do primeiro, assim como no
uso de uma linguagem eufemística como os famosos «chuveiros» para designar as
câmaras de gás, que não só protegiam as vítimas do terror causado pela
expectativa da morte, como os próprios militares de lhes terem de comunicar a
fatídica notícia. O extermínio ia-se tornando cada vez mais eficiente.
O mesmo podemos
ver na evolução da forma de tratamento que era dada aos judeus, desde a
humilhação pública como o uso de estrela, à exclusão social e o debilitar das
condições básicas de vida como o fechamento em guetos, até aos campos de
concentração e posteriormente alguns apenas dedicados ao extermínio (os judeus
eram aniquilados logo após o desembarque, suscitando o mínimo convívio possível
com os soldados).
Ainda neste
mesmo capítulo são abordadas as divergências nas formas de tratamento para com
os judeus nos países ocupados, desde uma Dinamarca que tentou evacuá-los o mais
rapidamente possível, pagando caro pela ousadia, até uma França de Vichy que se
mostrou excessivamente colaborante, mostrando um «bom desempenho» para com as
autoridades nazis, sendo ainda levado a crer pela autora que este acto de
loucura contra os judeus foi talvez o factor de derrocada do Reich, ao ter
perpetrado a Operação Barbarrossa em 1941, desrespeitando o Pacto de Ribbentrop
(1939) na expectativa de expulsar aquilo a que chamava do «judeo-bolchevismo»
vigente na Rússia.

O segundo
capitulo, em clara homenagem ao filme de Michael Curtiz de 1942 “A Casablanca
da Europa”, traz-nos a situação vista a partir de Portugal pelos refugiados
judeus que cá afluíram sobretudo a partir de 1940 e as graduais políticas que
foram tomadas de modo a restringir esse acesso por parte de um país que temia
perder o seu estatuto de neutralidade no conflito, que não tinha capacidade de
absorver esta enorme massa de indivíduos, mas que também temia a influência
«nefasta» dos estrangeiros e não era totalmente movido por ideais filo-semitas.
Não ter sido convidado a participar na Conferencia de Evian em 1938, dera a
Portugal o argumento necessário para não participar no Comité
Intergovernamental de Refugiados, o que lhe deu alguma margem de manobra para
tomar iniciativas políticas a restringir o acesso aos judeus refugiados. Se os
primeiros destes em 1933 ainda conseguiram permanecer, trabalhar e até adquirir
a nacionalidade, a partir de 1938 com o fechamento de fronteiras devido à
Guerra Civil Espanhola, com os novos passaportes que identificavam o seu
estatuto (os dos homens tinham escrito “Israel” e os das mulheres “Sara”) e com
a crescente vaga de imigração motivada pela tomada da Áustria, as coisas vão se
tornar complicadas para os judeus na obtenção de vistos, prática que agora era
regulamentada pela PVDE. Como estratégia os judeus eram levados para os
arredores da capital, de onde se não podiam afastar mais do que 5 Km sem autorização da
polícia política. Apesar de tudo Lisboa continuava a ser alcunhada de «capital
europeia dos sem-pátria» oriundos dos vários países ocupados, ou de «estância
turística internacional». A grande maioria desses judeus era culta – uma outra
razão para serem temidos – e não deixaram de existir boas impressões sobre
Portugal e as suas gentes, escritas em livros de memórias ou mesmo em romances publicados.
Quanto às
entidades de apoio aos refugiados activas em Portugal, logo em 1933 é criada a
Comassis presidida pela Comunidade Israelita de Lisboa na pessoa de Adolfo
Benarus, que se irá manter até 1941, quando a entrada nos Estados Unidos na
guerra vai trazer uma nova fase no apoio aos refugiados, presidido por
organizações norte-americanas sediadas em Portugal como a JOINT e a HICEM.
O terceiro
capítulo toma como cenário de fundo a Holanda e mais precisamente Amesterdão,
onde nos sécs. XVI e XVII se veio a estabelecer uma importante comunidade de
judeus de origem ibérica, que tanto religiosamente como economicamente demarcou
a História desse país, assim como a representação judaica (e principalmente
sefradita) no mundo. Entre outras importantes personagens, esta comunidade viu
nascer Espinosa, um dos grandes filósofos do seu tempo. Até inícios do séc.
XIX, quando os movimentos nacionalistas da Holanda haviam promulgado a
obrigatoriedade do neerlandês, a língua utilizada nas liturgias e relatórios desta
comunidade era o português. A sinagoga portuguesa de Amesterdão, construída
durante o séc. XVII é ainda hoje um ícone de referência da cultura judaica
universal, sobrevivendo à besta nazi por pressões holandesas que demonstraram
interesse em mantê-la como símbolo arquitectónico, e por falta de interesse
nazi em destruí-la «Provavelmente porque os alemães tinham a intenção de a
transformar num museu da cultura judaica desaparecida» escreve David Cohen
Pereira.
Quando os
alemães tomaram a Holanda em 1940, 140 mil indivíduos (4257 de origem
portuguesa, mas também muitos alemães refugiados) entraram em pânico, como
ficou imortalizado no diário de Anne Frank. São prontamente tomadas as
habituais políticas de exclusão social, como porte de estrela amarela e a
proibição de frequentar sítios públicos. Noite e dia os judeus eram capturados
pelas autoridades holandesas perfazendo o número de cotas que os alemães lhes
impunham. Muitos tentaram-se esconder, contudo mais de um terço das pessoas
escondidas serão recapturadas. No ano seguinte começam as deportações,
sobretudo para os campos de Buchenwald e Mathausen.
A comunidade
sefradita portuguesa sofreu um desfecho semelhante aos seus irmãos
asquenazitas, a deportação para os campos de Auschwitz, Sobibor, Bergen-Belsen
e Theresienstadt. Alguns destes, sob a orientação de N. de Beneditty formaram o
Joodse Raad, entidade que com o apoio
das autoridades holandesas propunha a libertação dos judeus sefraditas,
alegando provas «científicas» que provavam a enorme quantidade de «sangue
ariano» que estes detinham. Sem efeito, os argumentos acabaram reacusados pelas
autoridades alemãs, entre outros motivos, para não criar precedentes e os
sefraditas conheceram o mesmo trágico destino que os seus irmãos do norte da
Europa. Dos 4303 judeus sefraditas existentes na Holanda, apenas cerca de 500
ainda estavam vivos no final da guerra. Salazar poderia ter marcado alguma
diferença se decidisse intervir por estes judeus, contudo preferiu deixar a
questão nas mãos dos alemães e estes resolveram-na da forma a que estavam
habituados.
Holanda, terra
que salvou muitos judeus da Inquisição nos sécs. XVI e XVII, nada pôde fazer no
séc. XX em relação às perseguições do Holocausto.
O quarto capítulo
prende-se com a presença sefradita no Oriente, nomeadamente nos territórios que
então passaram a formar os Estados da Grécia e da Turquia, com o desmembramento
do Império Otomano nas primeiras décadas do séc. XX, durante a Guerra das
Balcãs, que desalojou muitos destes hebreus. O «Projecto Bravo» surgido em
Portugal durante a Primeira República tinha por fim realojar muitos destes
judeus, de origem portuguesa no território de Angola, contudo o projecto foi
rejeitado pelo medo das aspirações sionistas, de que se formasse aí um Estado
independente, tornando Angola numa nova Palestina. Aquando da cisão dos Estados
muitos judeus conseguiram a nacionalidade portuguesa de onde eram oriundos os
seus antepassados, evitando a grega. Com o tempo, as políticas nacionalistas
gregas vieram lesar muito as comunidades hebraicas, sobretudo da cidade de
Salónica «a capital judaica do Mediterrâneo», como a proibição de línguas
estrangeiras (que os caracterizavam) e a posse de propriedades por cidadãos
estrangeiros. Com o tempo, um anti-semitismo crescente iria resultar em
progromes contra os bairros judaicos.
O incendio que
deflagrou em Salónica em 1917, para além de causar mortes e deixar muitos
judeus desabrigados, destruiu também o consulado português com toda a sua
documentação, o que foi motivo para que o Estado Novo desconfiasse da
identidade dos judeus gregos, face à crescente falsificação de documentos,
durante o período quente do Holocausto.
Quando a Grécia
foi tomada pelas forças do Eixo em 1941, as coisas complicaram-se realmente
para os judeus gregos que após as habituais políticas de afastamento como a
demarcação pelo uso da estrela, começaram a ser deportados para os campos de
concentração. Muitos apelaram à nacionalidade portuguesa que tinham, contudo
Portugal, devido ao já citado incidente, evitava comprometer-se a receber no
seu território «falsos» portugueses. Dos 50 mil judeus que habitavam em
Salónica, apenas 5% se salvou do Holocausto. A antiga «capital judaica», cuja
populção era mais de metade de origem hebraica, era agora uma cidade sem judeus.
Melhor sorte
tiveram aqueles que optaram pelo território turco aquando da separação, onde
apesar do anti-semitismo crescente na imprensa e da impossibilidade de
desempenhar cargos públicos, irão viver com relativa segurança. Durante o
conflito a Turquia vai manter um estatuto de neutralidade e nunca teve a má
sorte de ser tomada pelo Eixo, em 1943 vai aproximar-se dos Aliados,
tornando-se mais benevolente a situação dos judeus autóctones e tornando-se a
Turquia um local de asilo para muitos refugiados.
De seguida
somos levados para a situação francesa no quinto capítulo. A França havia expulsado
os seus judeus em 1394, nunca vindo a formar comunidades judaicas depois disso,
contudo não estando a sua Inquisição activa no séc. XVIII, formou um clima
favorável para que muitos judeus portugueses procurassem aí refúgio. Camille
Pissarro, considerado o maior retratista do séc. XIX, descende de um desses
casos, sendo filho de um «marrano» transmontano.
Ao contrário da
formação de uma comunidade autónoma como acontecera em Amesterdão, ou da clara
demarcação entre estes e a restante população, fundamentados por uma língua e cultura
próprias, os judeus da França foram completamente aglutinados entre a restante
comunidade pelas políticas assimilacionistas do pós-Revolução de 1789. Sob o
pretexto de «Nada para os judeus enquanto nação, tudo para os judeus enquanto
indivíduos», os ditos judeus passaram a ser «cidadãos franceses de confissão
mosaica». Se estas políticas filo-semitas resultaram nos primeiros tempos, a
propaganda do século seguinte e sobretudo o caso Dreyfus em 1894 vieram a
demonstrar que essa «assimilação» não estava concretizada nas mentalidades.
Durante o Holocausto e com a tomada da França em 1939, essa «assimilação»
tornou-se mesmo contraprodutiva, pois mais dificilmente poderiam ser ajudados
cidadãos de pleno estatuto por parte de potências estrangeiras, do que
apátridas.
Se a França
revolucionária se demarcou pelas políticas filo-semitas, foi também lá um dos
locais onde o anti-semitismo moderno ganhou maior expressão no séc. XIX, a par
com a Alemanha. Entre as personalidades que escreveram sobre esses ideais e a
grande massa de adeptos, destaca-se um porta-voz de peso, Édouard Drumont que
em 1886 publicou um La France Juïve – Le
Juif, voilá l’ennemi com 114 edições nesse mesmo ano, onde eram evocadas
todas as acusações e estereótipos antijudaicos: a usura, a ganancia, a traição,
os assassinatos rituais e o ódio a Cristo. Com o caldo já bem preparado, o caso
Dreyfus foi simplesmente a gota final que fez explodir a bomba.
Não é ao acaso
que a filósofa judia Hannah Arendt tenha acusado a França de ter preparado o terreno
onde cresceram as raízes do Holocausto.
Finalmente o
sexto e último capítulo leva-nos para a situação da Hungria, que se destaca não
tanto pela presença de judeus de origem portuguesa, mas sobretudo pela acção de
dois diplomatas portugueses. No seguimento da Primeira Guerra e do Tratado de
Trianon em 1920, a Hungria ver-se-á privada de grande parte do seu território,
firmando uma aliança com o Eixo na esperança de o reaver. Ao abrigo dessa
aliança, conseguiu recuperar o território em 1938, ficando a braços com uma
população de 800 mil judeus. Apesar dos movimentos anti-semitas que aí
existiam, a comunidade judaica vivia em relativa segurança, com um lugar de
destaque, até à invasão nazi em 1944, confiando estes profundamente no governo
de Horthy para os proteger.
Foi portanto de
chofre que assistiram às habituais políticas nazis de separação social e de
obrigatoriedade do uso de estrela, aos seus bairros atacados por militantes do
novo partido de inspiração nazi «Cruz de Ferro», quando pouco depois começaram
as deportações para Auschwitz-Birkenau para onde foram levados cerca de 500
mil. Quando no final desse ano Horthy, ainda na presidência, pôs fim às
deportações, restavam não mais de 200 mil judeus em Budapeste.
Exceptuando a
acção de salvação de Giorgio «Jorge» Perlasca que quase assume aspectos
fílmicos, ao ter-se feito nomear representante do consulado espanhol, salvando
perto de duas centenas de judeus, o ponto forte deste capítulo prende-se com a
acção dos diplomatas portugueses Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho: o
primeiro arrendou uma propriedade em Galgagyork a 60 Km de Budapeste onde
manteve alguns «hóspedes» judeus, munindo-se do direito à extraterritorialidade
para os proteger, o que não o afastou de alguns problemas com a Gestapo e com as
autoridades húngaras, levando à sua demissão. Teixeira Branquinho que o
substituiu continuou a mesma estratégia de salvamento na propriedade de
Galgagyork. Entre o grupo salvo por estes dois portugueses, encontra-se o nome
de uma judia que se tornará uma estrela de Hollywood – Zsa Zsa Gabor.
Por fim, a
narrativa termina com um epílogo, onde volta a ser dada uma abordagem geral
deste período, seguido do desmistificar de certas opiniões criadas à volta do
Holocausto e do processo de reintegração das comunidades judaicas, nem sempre
pacífica, sobretudo em algumas aldeias polacas onde os judeus sobreviventes,
acabaram linchados pelos populares aquando do seu regresso.
Como já foi
dito – e demonstrado por esta síntese – é uma obra divulgativa de carácter abrangente,
tendo em vista apelar não só ao olhar crítico do historiador, mas também do
cidadão comum com poucos conhecimentos deste assunto. Numa altura em que
temáticas como a multiculturalidade e
multiculturalismo são palavras de
ordem num mundo globalizado, torna-se imperativo poder olhar para as nossas
raízes a fim de desmistificar os ideais racistas e xenófobos que poderão surgir
e vir a ser inflacionados por certas correntes marginais de pensamento. O
Holocausto, com todos os seus extremos, foi sobretudo uma consequência
inesperada (e rebuscada) de um processo racista criado ao longo de cento e
cinquenta anos de História, com antecedentes ainda mais profundos, e não uma
bolha isolada sobre si própria, como poderemos ser levados a crer na falta de
informação sobre o assunto. Se quisermos procurar uma causa, encontremo-la no
facto de duas culturas distintas partilharem o mesmo território, onde uma
delas, a dominante, procurou desenvolver um meio de aniquilar a sua rival.
Surge então a
questão do sensacionalismo evocado ao longo destas duzentas páginas, através de
histórias e testemunhos que fazem desviar a narrativa dos aspectos centrais da
História: estando nós a falar de um processo que vitimou muitos cidadãos comuns,
não considero pouco pertinente que se fale nisso, pois ao dar a possibilidade do
leitor se colocar na pele das vítimas, fá-lo-á a ver a questão de outro modo e
talvez de uma forma muito mais eficaz que uma fria descrição histórica, ou a
abordagem do problema usando-se apenas de métodos quantificativos. É esse o
objectivo dos romances históricos, usando-se muitas vezes de personagens
fictícias, neste caso elas são reais e não poderemos deixar de sentir compaixão
por Garik, o menino de dez anos que sobreviveu aos fuzilamentos de Berditchev
em 1939, tendo sido recapturado dez dias mais tarde e executado, por Baruch
Laguna o grande retratista judeu, que apesar de ter nascido na Holanda, viveu e
morreu como o pintor português em
Auschwitz em 1943, por Hélène Berr, heroína de 23 anos que em Bergen-Belsen é
espancada até à morte em 1944 e por muitos outros que com maior ou menor
resistência, viram as suas vidas repentinamente arrancadas pelo monstro nazi,
assim como não poderemos deixar de admirar os comportamentos de homens que,
estando no local certo à hora certa, não deixaram de empenhar a sua segurança
em nome do bem humanitário, como os pescadores dinamarqueses que fizeram
evacuar muitos judeus para o exterior após a tomada do seu país, como José
Brito Mendes, emigrante português em França que cuidou de uma miúda judia,
Cécile, como sua filha após a deportação de seus pais para Auschwitz,
protegendo-a de destino igual, de Giorgio Perlasca que aproveitou a saída do
verdadeiro cônsul para se fazer passar por representante do consulado espanhol
na Hungria, concedendo vistos indevidamente e dando protecção aos judeus
refugiados neste consulado, pelos portugueses Sampaio Garrido e Teixeira
Branquinho que no mesmo espaço criaram as condições necessárias para a
protecção de alguns judeus debaixo do consulado português, por Aristides Sousa
Mendes e a sua história sobejamente conhecida e por muitos outros, que de uma
forma ou de outra conseguiram, ou pelo menos arriscaram tentar, salvar vidas.
Não deixamos também, é claro, de partilhar parte do triunfo daqueles que,
contra todas as adversidades, conseguiram escapar, encontrando finalmente refúgio
em locais como Portugal.
Pedro Renato
Trindade Dias Simplício Ferreira








