segunda-feira, 9 de julho de 2012

Recensão Crítica do livro "Portugueses no Holocausto" de Esther Mucznik

MUCZNIK, Esther, Portugueses no Holocausto, A Esfera dos Livros, 2012


Esther Mucznik apresenta-nos uma obra deveras curiosa, que como indicado no título, não se refere apenas às acções de Portugal durante este período negro da História, onde já encontramos outros nomes como Irene Pimentel, Avraham Milgram, Jorge Martins, entre outros, mas sobretudo sobre os indivíduos portugueses, que de uma forma ou de outra, se viram abarcados por esta teia de extermínio, quer fosse no lugar de vítimas, executantes, políticos, diplomatas «desobedientes» ou não, ou simplesmente cidadãos comuns que se encontraram no lugar certo à hora certa, podendo orientar as suas acções para uma ajuda humanitária. A narrativa é canalizada bastantes vezes para exemplos concretos ou testemunhos de pessoas que sofreram na pele, directa ou indirectamente, os terrores da besta nazi, jogando com um certo sensacionalismo de modo a apelar aos sentimentos do leitor. Não é perdida de vista a acção política portuguesa durante todo este período, que por se demarcar por um legalismo extremo e intransigente, lançou muitos judeus às feras, contudo, não sendo esse o principal objectivo da obra, esse temática é explorada apenas para poderem ser abordados alguns casos práticos.

Não tendo Portugal sido directamente afectado pelo Holocausto, a maioria dos capítulos foca-se em perspectivas estrangeiras. Cumprindo objectivos divulgativos a autora firma-se mais em fornecer um plano geral, do que em aprofundar pequenos temas e ao fundamentar-se no passado distante para explicar consequências recentes, a obra acaba por nos dar uma perspectiva (bastante sumária, diga-se) da história dos judeus na Europa. Para isto, um glossário no final, onde são explicados termos como “Asquenazitas”, “Ladino”, “Sefraditas” ou “Yom Kipur” ajudará bastante a leitura do público médio, alheio a muitos destes termos, assim como também um conjunto de fotografias a meio do livro e documentos reproduzidos em anexo poderão ajudar a uma compreensão visual sobre a temática abordada. Por tudo isso considero uma leitura pertinente para o grande público, com opiniões de um modo geral bastante limitadas sobre esta temática, tendendo por vezes a um enorme desinteresse por ser um episódio que pouca influência deteve na história nacional – o Holocausto tirou a vida a muitos judeus que só não eram portugueses devido à expulsão dos seus antepassados em 1497 e ao periodo inquisitorial (alguns tinham mesmo a nacionalidade), mas se este foi o lado negro, também existe a outra parte, a de Portugal como local de acolhimento e meio de salvação de muitas vidas. Em tudo isso se poderá ver que a participação indirecta de Portugal no Holocausto, não foi por isso menos activa.


Após uma nota ao leitor explicando as origens do termo “Holocausto” e de uma espécie de prólogo in media res à maneira de um filme de terror, onde nos aparecem os dirigentes das SS na Conferencia de Wannsee em 1942, debatendo o problema da «solução final da questão judaica da Europa», ou seja do extermínio de 11 milhões de pessoas, Mucznik salta para um primeiro capítulo onde de uma forma geral é explicada a «evolução» do combate ao «problema judaico», desde a subida de Hitler ao poder da Alemanha em 1933 até à libertação dos campos de concentração pelas tropas aliadas em 1944 e 1945.

Aqui é-nos dada uma perspectiva de todo o processo, passando pelas leis de Nuremberga que retiravam a cidadania alemã e quaisquer direitos aos judeus, pela primeira manifestação de repressão violenta, imortalizada pelo nome de «Noite de Cristal» (9 para 10 de Novembro de 1939) e pela tomada da Polónia que ao trazer um revigorado auto-estima ao governo nazi, também alterou a forma de tratamento para com os judeus (as humilhações cometidas pelos soldados para com os judeus polacos, superaram nos primeiros tempos as mesmas cometidas para com os judeus alemães). Também nos é caracterizado o ponto de vista técnico das formas de extermínio, desde os fuzilamentos em massa que, entre outros casos aniquilaram a comunidade judaica da cidade ucraniana de Berditchev, até aos meios mais sofisticados como camiões com gás e posteriormente câmaras de gás, que ao afastarem o executor do contacto directo com a vítima, preveniam certos problemas como transtornos psicológicos por parte do primeiro, assim como no uso de uma linguagem eufemística como os famosos «chuveiros» para designar as câmaras de gás, que não só protegiam as vítimas do terror causado pela expectativa da morte, como os próprios militares de lhes terem de comunicar a fatídica notícia. O extermínio ia-se tornando cada vez mais eficiente.

O mesmo podemos ver na evolução da forma de tratamento que era dada aos judeus, desde a humilhação pública como o uso de estrela, à exclusão social e o debilitar das condições básicas de vida como o fechamento em guetos, até aos campos de concentração e posteriormente alguns apenas dedicados ao extermínio (os judeus eram aniquilados logo após o desembarque, suscitando o mínimo convívio possível com os soldados).

Ainda neste mesmo capítulo são abordadas as divergências nas formas de tratamento para com os judeus nos países ocupados, desde uma Dinamarca que tentou evacuá-los o mais rapidamente possível, pagando caro pela ousadia, até uma França de Vichy que se mostrou excessivamente colaborante, mostrando um «bom desempenho» para com as autoridades nazis, sendo ainda levado a crer pela autora que este acto de loucura contra os judeus foi talvez o factor de derrocada do Reich, ao ter perpetrado a Operação Barbarrossa em 1941, desrespeitando o Pacto de Ribbentrop (1939) na expectativa de expulsar aquilo a que chamava do «judeo-bolchevismo» vigente na Rússia.

O segundo capitulo, em clara homenagem ao filme de Michael Curtiz de 1942 “A Casablanca da Europa”, traz-nos a situação vista a partir de Portugal pelos refugiados judeus que cá afluíram sobretudo a partir de 1940 e as graduais políticas que foram tomadas de modo a restringir esse acesso por parte de um país que temia perder o seu estatuto de neutralidade no conflito, que não tinha capacidade de absorver esta enorme massa de indivíduos, mas que também temia a influência «nefasta» dos estrangeiros e não era totalmente movido por ideais filo-semitas. Não ter sido convidado a participar na Conferencia de Evian em 1938, dera a Portugal o argumento necessário para não participar no Comité Intergovernamental de Refugiados, o que lhe deu alguma margem de manobra para tomar iniciativas políticas a restringir o acesso aos judeus refugiados. Se os primeiros destes em 1933 ainda conseguiram permanecer, trabalhar e até adquirir a nacionalidade, a partir de 1938 com o fechamento de fronteiras devido à Guerra Civil Espanhola, com os novos passaportes que identificavam o seu estatuto (os dos homens tinham escrito “Israel” e os das mulheres “Sara”) e com a crescente vaga de imigração motivada pela tomada da Áustria, as coisas vão se tornar complicadas para os judeus na obtenção de vistos, prática que agora era regulamentada pela PVDE. Como estratégia os judeus eram levados para os arredores da capital, de onde se não podiam afastar mais do que 5 Km sem autorização da polícia política. Apesar de tudo Lisboa continuava a ser alcunhada de «capital europeia dos sem-pátria» oriundos dos vários países ocupados, ou de «estância turística internacional». A grande maioria desses judeus era culta – uma outra razão para serem temidos – e não deixaram de existir boas impressões sobre Portugal e as suas gentes, escritas em livros de memórias ou mesmo em romances publicados.

Quanto às entidades de apoio aos refugiados activas em Portugal, logo em 1933 é criada a Comassis presidida pela Comunidade Israelita de Lisboa na pessoa de Adolfo Benarus, que se irá manter até 1941, quando a entrada nos Estados Unidos na guerra vai trazer uma nova fase no apoio aos refugiados, presidido por organizações norte-americanas sediadas em Portugal como a JOINT e a HICEM.

O terceiro capítulo toma como cenário de fundo a Holanda e mais precisamente Amesterdão, onde nos sécs. XVI e XVII se veio a estabelecer uma importante comunidade de judeus de origem ibérica, que tanto religiosamente como economicamente demarcou a História desse país, assim como a representação judaica (e principalmente sefradita) no mundo. Entre outras importantes personagens, esta comunidade viu nascer Espinosa, um dos grandes filósofos do seu tempo. Até inícios do séc. XIX, quando os movimentos nacionalistas da Holanda haviam promulgado a obrigatoriedade do neerlandês, a língua utilizada nas liturgias e relatórios desta comunidade era o português. A sinagoga portuguesa de Amesterdão, construída durante o séc. XVII é ainda hoje um ícone de referência da cultura judaica universal, sobrevivendo à besta nazi por pressões holandesas que demonstraram interesse em mantê-la como símbolo arquitectónico, e por falta de interesse nazi em destruí-la «Provavelmente porque os alemães tinham a intenção de a transformar num museu da cultura judaica desaparecida» escreve David Cohen Pereira.

Quando os alemães tomaram a Holanda em 1940, 140 mil indivíduos (4257 de origem portuguesa, mas também muitos alemães refugiados) entraram em pânico, como ficou imortalizado no diário de Anne Frank. São prontamente tomadas as habituais políticas de exclusão social, como porte de estrela amarela e a proibição de frequentar sítios públicos. Noite e dia os judeus eram capturados pelas autoridades holandesas perfazendo o número de cotas que os alemães lhes impunham. Muitos tentaram-se esconder, contudo mais de um terço das pessoas escondidas serão recapturadas. No ano seguinte começam as deportações, sobretudo para os campos de Buchenwald e Mathausen.

A comunidade sefradita portuguesa sofreu um desfecho semelhante aos seus irmãos asquenazitas, a deportação para os campos de Auschwitz, Sobibor, Bergen-Belsen e Theresienstadt. Alguns destes, sob a orientação de N. de Beneditty formaram o Joodse Raad, entidade que com o apoio das autoridades holandesas propunha a libertação dos judeus sefraditas, alegando provas «científicas» que provavam a enorme quantidade de «sangue ariano» que estes detinham. Sem efeito, os argumentos acabaram reacusados pelas autoridades alemãs, entre outros motivos, para não criar precedentes e os sefraditas conheceram o mesmo trágico destino que os seus irmãos do norte da Europa. Dos 4303 judeus sefraditas existentes na Holanda, apenas cerca de 500 ainda estavam vivos no final da guerra. Salazar poderia ter marcado alguma diferença se decidisse intervir por estes judeus, contudo preferiu deixar a questão nas mãos dos alemães e estes resolveram-na da forma a que estavam habituados.

Holanda, terra que salvou muitos judeus da Inquisição nos sécs. XVI e XVII, nada pôde fazer no séc. XX em relação às perseguições do Holocausto.

O quarto capítulo prende-se com a presença sefradita no Oriente, nomeadamente nos territórios que então passaram a formar os Estados da Grécia e da Turquia, com o desmembramento do Império Otomano nas primeiras décadas do séc. XX, durante a Guerra das Balcãs, que desalojou muitos destes hebreus. O «Projecto Bravo» surgido em Portugal durante a Primeira República tinha por fim realojar muitos destes judeus, de origem portuguesa no território de Angola, contudo o projecto foi rejeitado pelo medo das aspirações sionistas, de que se formasse aí um Estado independente, tornando Angola numa nova Palestina. Aquando da cisão dos Estados muitos judeus conseguiram a nacionalidade portuguesa de onde eram oriundos os seus antepassados, evitando a grega. Com o tempo, as políticas nacionalistas gregas vieram lesar muito as comunidades hebraicas, sobretudo da cidade de Salónica «a capital judaica do Mediterrâneo», como a proibição de línguas estrangeiras (que os caracterizavam) e a posse de propriedades por cidadãos estrangeiros. Com o tempo, um anti-semitismo crescente iria resultar em progromes contra os bairros judaicos.

O incendio que deflagrou em Salónica em 1917, para além de causar mortes e deixar muitos judeus desabrigados, destruiu também o consulado português com toda a sua documentação, o que foi motivo para que o Estado Novo desconfiasse da identidade dos judeus gregos, face à crescente falsificação de documentos, durante o período quente do Holocausto.

Quando a Grécia foi tomada pelas forças do Eixo em 1941, as coisas complicaram-se realmente para os judeus gregos que após as habituais políticas de afastamento como a demarcação pelo uso da estrela, começaram a ser deportados para os campos de concentração. Muitos apelaram à nacionalidade portuguesa que tinham, contudo Portugal, devido ao já citado incidente, evitava comprometer-se a receber no seu território «falsos» portugueses. Dos 50 mil judeus que habitavam em Salónica, apenas 5% se salvou do Holocausto. A antiga «capital judaica», cuja populção era mais de metade de origem hebraica,  era agora uma cidade sem judeus.

Melhor sorte tiveram aqueles que optaram pelo território turco aquando da separação, onde apesar do anti-semitismo crescente na imprensa e da impossibilidade de desempenhar cargos públicos, irão viver com relativa segurança. Durante o conflito a Turquia vai manter um estatuto de neutralidade e nunca teve a má sorte de ser tomada pelo Eixo, em 1943 vai aproximar-se dos Aliados, tornando-se mais benevolente a situação dos judeus autóctones e tornando-se a Turquia um local de asilo para muitos refugiados.

De seguida somos levados para a situação francesa no quinto capítulo. A França havia expulsado os seus judeus em 1394, nunca vindo a formar comunidades judaicas depois disso, contudo não estando a sua Inquisição activa no séc. XVIII, formou um clima favorável para que muitos judeus portugueses procurassem aí refúgio. Camille Pissarro, considerado o maior retratista do séc. XIX, descende de um desses casos, sendo filho de um «marrano» transmontano.

Ao contrário da formação de uma comunidade autónoma como acontecera em Amesterdão, ou da clara demarcação entre estes e a restante população, fundamentados por uma língua e cultura próprias, os judeus da França foram completamente aglutinados entre a restante comunidade pelas políticas assimilacionistas do pós-Revolução de 1789. Sob o pretexto de «Nada para os judeus enquanto nação, tudo para os judeus enquanto indivíduos», os ditos judeus passaram a ser «cidadãos franceses de confissão mosaica». Se estas políticas filo-semitas resultaram nos primeiros tempos, a propaganda do século seguinte e sobretudo o caso Dreyfus em 1894 vieram a demonstrar que essa «assimilação» não estava concretizada nas mentalidades. Durante o Holocausto e com a tomada da França em 1939, essa «assimilação» tornou-se mesmo contraprodutiva, pois mais dificilmente poderiam ser ajudados cidadãos de pleno estatuto por parte de potências estrangeiras, do que apátridas.

Se a França revolucionária se demarcou pelas políticas filo-semitas, foi também lá um dos locais onde o anti-semitismo moderno ganhou maior expressão no séc. XIX, a par com a Alemanha. Entre as personalidades que escreveram sobre esses ideais e a grande massa de adeptos, destaca-se um porta-voz de peso, Édouard Drumont que em 1886 publicou um La France Juïve – Le Juif, voilá l’ennemi com 114 edições nesse mesmo ano, onde eram evocadas todas as acusações e estereótipos antijudaicos: a usura, a ganancia, a traição, os assassinatos rituais e o ódio a Cristo. Com o caldo já bem preparado, o caso Dreyfus foi simplesmente a gota final que fez explodir a bomba.

Não é ao acaso que a filósofa judia Hannah Arendt tenha acusado a França de ter preparado o terreno onde cresceram as raízes do Holocausto.

Finalmente o sexto e último capítulo leva-nos para a situação da Hungria, que se destaca não tanto pela presença de judeus de origem portuguesa, mas sobretudo pela acção de dois diplomatas portugueses. No seguimento da Primeira Guerra e do Tratado de Trianon em 1920, a Hungria ver-se-á privada de grande parte do seu território, firmando uma aliança com o Eixo na esperança de o reaver. Ao abrigo dessa aliança, conseguiu recuperar o território em 1938, ficando a braços com uma população de 800 mil judeus. Apesar dos movimentos anti-semitas que aí existiam, a comunidade judaica vivia em relativa segurança, com um lugar de destaque, até à invasão nazi em 1944, confiando estes profundamente no governo de Horthy para os proteger.

Foi portanto de chofre que assistiram às habituais políticas nazis de separação social e de obrigatoriedade do uso de estrela, aos seus bairros atacados por militantes do novo partido de inspiração nazi «Cruz de Ferro», quando pouco depois começaram as deportações para Auschwitz-Birkenau para onde foram levados cerca de 500 mil. Quando no final desse ano Horthy, ainda na presidência, pôs fim às deportações, restavam não mais de 200 mil judeus em Budapeste.

Exceptuando a acção de salvação de Giorgio «Jorge» Perlasca que quase assume aspectos fílmicos, ao ter-se feito nomear representante do consulado espanhol, salvando perto de duas centenas de judeus, o ponto forte deste capítulo prende-se com a acção dos diplomatas portugueses Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho: o primeiro arrendou uma propriedade em Galgagyork a 60 Km de Budapeste onde manteve alguns «hóspedes» judeus, munindo-se do direito à extraterritorialidade para os proteger, o que não o afastou de alguns problemas com a Gestapo e com as autoridades húngaras, levando à sua demissão. Teixeira Branquinho que o substituiu continuou a mesma estratégia de salvamento na propriedade de Galgagyork. Entre o grupo salvo por estes dois portugueses, encontra-se o nome de uma judia que se tornará uma estrela de Hollywood – Zsa Zsa Gabor.

Por fim, a narrativa termina com um epílogo, onde volta a ser dada uma abordagem geral deste período, seguido do desmistificar de certas opiniões criadas à volta do Holocausto e do processo de reintegração das comunidades judaicas, nem sempre pacífica, sobretudo em algumas aldeias polacas onde os judeus sobreviventes, acabaram linchados pelos populares aquando do seu regresso.



Como já foi dito – e demonstrado por esta síntese – é uma obra divulgativa de carácter abrangente, tendo em vista apelar não só ao olhar crítico do historiador, mas também do cidadão comum com poucos conhecimentos deste assunto. Numa altura em que temáticas como a multiculturalidade e multiculturalismo são palavras de ordem num mundo globalizado, torna-se imperativo poder olhar para as nossas raízes a fim de desmistificar os ideais racistas e xenófobos que poderão surgir e vir a ser inflacionados por certas correntes marginais de pensamento. O Holocausto, com todos os seus extremos, foi sobretudo uma consequência inesperada (e rebuscada) de um processo racista criado ao longo de cento e cinquenta anos de História, com antecedentes ainda mais profundos, e não uma bolha isolada sobre si própria, como poderemos ser levados a crer na falta de informação sobre o assunto. Se quisermos procurar uma causa, encontremo-la no facto de duas culturas distintas partilharem o mesmo território, onde uma delas, a dominante, procurou desenvolver um meio de aniquilar a sua rival.

Surge então a questão do sensacionalismo evocado ao longo destas duzentas páginas, através de histórias e testemunhos que fazem desviar a narrativa dos aspectos centrais da História: estando nós a falar de um processo que vitimou muitos cidadãos comuns, não considero pouco pertinente que se fale nisso, pois ao dar a possibilidade do leitor se colocar na pele das vítimas, fá-lo-á a ver a questão de outro modo e talvez de uma forma muito mais eficaz que uma fria descrição histórica, ou a abordagem do problema usando-se apenas de métodos quantificativos. É esse o objectivo dos romances históricos, usando-se muitas vezes de personagens fictícias, neste caso elas são reais e não poderemos deixar de sentir compaixão por Garik, o menino de dez anos que sobreviveu aos fuzilamentos de Berditchev em 1939, tendo sido recapturado dez dias mais tarde e executado, por Baruch Laguna o grande retratista judeu, que apesar de ter nascido na Holanda, viveu e morreu como o pintor português em Auschwitz em 1943, por Hélène Berr, heroína de 23 anos que em Bergen-Belsen é espancada até à morte em 1944 e por muitos outros que com maior ou menor resistência, viram as suas vidas repentinamente arrancadas pelo monstro nazi, assim como não poderemos deixar de admirar os comportamentos de homens que, estando no local certo à hora certa, não deixaram de empenhar a sua segurança em nome do bem humanitário, como os pescadores dinamarqueses que fizeram evacuar muitos judeus para o exterior após a tomada do seu país, como José Brito Mendes, emigrante português em França que cuidou de uma miúda judia, Cécile, como sua filha após a deportação de seus pais para Auschwitz, protegendo-a de destino igual, de Giorgio Perlasca que aproveitou a saída do verdadeiro cônsul para se fazer passar por representante do consulado espanhol na Hungria, concedendo vistos indevidamente e dando protecção aos judeus refugiados neste consulado, pelos portugueses Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho que no mesmo espaço criaram as condições necessárias para a protecção de alguns judeus debaixo do consulado português, por Aristides Sousa Mendes e a sua história sobejamente conhecida e por muitos outros, que de uma forma ou de outra conseguiram, ou pelo menos arriscaram tentar, salvar vidas. Não deixamos também, é claro, de partilhar parte do triunfo daqueles que, contra todas as adversidades, conseguiram escapar, encontrando finalmente refúgio em locais como Portugal.


 
Pedro Renato Trindade Dias Simplício Ferreira

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Filme de Ficção no Ensino da História Medieval




A Imagem na Didáctica da História



O cinema é a arte que suscita maior reacção do público sendo aquela com quem ele mais interage. Diz o velho ditado que uma imagem vale mais do que mil palavras, sendo que a iconografia sempre permeou o modo de expressão do ser humano desde tempos anteriores às civilizações organizadas, pois em oposição à palavra oral ou escrita que reconta através de frias descrições, que só com algum esforço do complexo imaginativo pode ser trazida pelo agente e convertida em informação, podendo ainda acrescentar-se o problema acrescido de ser estrangeira e por tanto incompreensível para o individuo que a descodifica, a imagem tem a vantagem de quebrar todas essas barreiras, actuando no momento em que o sujeito entra em contacto com o objecto, com o mínimo de esforço por parte do primeiro e um grande efeito por parte do segundo, constituindo para além disto uma linguagem universal. Há mais, pois é do próprio contacto com a imagem (seja esta iconográfica, fotográfica ou da própria realidade) que se moldam as balizas da imaginação, permitindo “recriar” os mapas de detalhes sugeridos pela linguagem.

História sem imagens seria algo insípido, irreal, sem lugar no espaço e no tempo, pois de que forma poderíamos compreender e recriar o passado, sem ter por base um conjunto de imagens que possamos atribuir a um determinado período de tempo, recriando-o visualmente. Como poderíamos, seguindo o modelo deste artigo, imaginar a Idade Média sem ter por base um conjunto de imagens que chegaram até nós, sobretudo através das iluminuras, permitindo-nos rever cavaleiros de armadura reluzente e camponeses de enxada em punho.

Esta estratégia das imagens foi bem conhecida pelo homem de todas as épocas históricas, servindo ideais políticos, religiosos, científicos, etc. Dela fizeram uso faraós egípcios, imperadores romanos, monges medievais e lideres modernos como Luís XIV.

Os sistemas totalitários do séc. XX, todos sem excepção, muito uso fizeram dela e só para dar uma ideia do quanto um imaginário criado por imagens subsiste, atentemos no que nos deixou o Estado Novo. Quase ainda antes de sabermos que o sistema surgiu no seguimento da revolução de 28 de Maio de 1926 devido aos problemas da 1ª Republica e que caiu a 25 de Abril de 1974, que teve como presidentes da república nomes como Óscar Carmona, Craveiro Lopes e Américo Tomás, que praticava uma economia proteccionista, que se inspirava no fascismo italiano e que primava pela falta de liberdade de expressão, já teremos em mente um Portugal bucólico, etnográfico, religioso, etc., devido à famosa construção iconográfica encabeçada por António Ferro e que ainda subsiste no imaginário comum, através do poder de imagens que aqui e ali nos vão servindo. Podemos visualizá-las e mesmo sem a sabermos classificar, já estamos a retirar delas informação, enquanto para o caso dos primeiros exemplos, tudo nos fica por um conjunto de conjecturas apreendidas pela linguagem, que poderão fazer muito pouco sentido para a mente de um adolescente.

Pense-se agora no regime hitleriano e no que nos chegou primeiramente à cabeça sobre ele: águias segurando suásticas, rapazes loiros de aspecto hercúleo, imagens de um ditador empolgado, seguidas das de judeus escanzelados em campos de concentração, ao invés de temas vagos como a tomada da Polónia, Hungria ou França, pois estes costumam-se limitar ao conceito genérico e pouco claro de «Segunda Guerra Mundial».

Pense-se no milagre americano e não podemos obliterar os slogans coloridos promulgando o «American Way of Life!», belas pin-ups atrevidas a refrescarem-se com a Coca-Cola, alegres donas de casa promovendo instrumentos de uso doméstico e homens felizes conduzindo automóveis como o Ford.

O mesmo vai acontecer com a Idade Média, que muito desprovida de contexto, é vista à luz de cavaleiros galantes que enfrentam dragões para salvar belas donzelas, de camponeses que alegremente vão cuidando dos campos em redor de um castelo, de majestosas catedrais góticas, de imagens referentes à Peste Negra, onde sombrios esqueletos armados de espadas, foices ou gadanhas, vêm clamar a vida de homenzinhos moribundos. De repente entra-se na era da luz e estas imagens vão dar origem a belos quadros de madonnas rechonchudas de filho ao peito, de conceitos neo-clássicos onde heróis e deusas se erguem na sua beleza, de burgueses em trajos quinhentistas, belos palácios, Giocondas, Raffaellos e DaVincis.

Quantos de nós não se apanharam a avançar páginas no livro, alheios às explicações do professor, só para contemplar os belos desenhos do livro, que nos transportavam para outras realidades? Enquanto a nossa mente se divertia com estas imagens, às vezes muito pouco nos tinha ficado de factos concretos, pouco materiais: conhecíamos o facto de D. Afonso Henriques ter fundado Portugal, lembrando-nos sempre da sua magnânima imagem de olhar erguido, sabíamos de uma sequência de reis que tinham vivido há muito tempo (que era quase como se tivessem coabitado), de uma batalha de Aljobarrota (quando os Espanhóis tentaram “conquistar” Portugal, mas foram acossados), dos Descobrimentos de belas naus e caravelas com cruzes vermelhas, sempre através de imagens. Em termos gerais sabíamos que Idade Média era quase sinónimo de Peste Negra (invocando mentalmente iconografia) e não nos era estranho saber que existira uma Guerra dos 100 anos (e que principalmente lá se destacara uma estranha mulher que acabou queimada viva – sempre recorrendo à iconografia).
É pois usando-me fortemente de imagens, que através deste blogue, tentarei recontar alguns temas da História.


Os Filmes Como Imagens em Movimento


O cinema é sobretudo um conjunto de imagens em movimento que nos permite visualizar cenários fora do contexto onde vivemos quase tão perfeitamente como se estivéssemos a assistir a um episódio das nossas vidas, onde ao invés de toscas iluminuras irreais, poderemos visualizar reconstituições quase perfeitas, plausíveis, onde pessoas de carne e osso se vestem com esses fatos “esquisitos” da Idade Média, recuperam modos de discurso, maneiras de estar ou de agir em sociedade, formas de expressão, medos e receios, etc. Não tenhamos dúvidas que o cinema foi a maior conquista artística do século XX e talvez a melhor conquista expressiva de todos os tempos, se mais recentemente a Internet lhe pode roubar o lugar, é muitas vezes usando-se dele.

Com base na minha experiência cinematográfica e em conversas com outros que partilham os mesmos gostos, tentarei sugerir alguns títulos de alguma pertinência.

Deixam então de existir batalhas estáticas onde toscas figuras se digladiam por qualquer motivo não dito, para darem lugar a seres humanos de rostos corpóreos com os seus medos e ambições. Desaparecem os exércitos de esqueletos furiosos, atacando populações indefesas, para passar a existir um terror psicológico concreto, vivido por um grupo de homens enfrentando uma doença altamente contagiosa como em filmes como O Sétimo Selo (1957) ou Amor e Sangue (1985). Acabam-se as iconografias das bruxas a arder em magníficos espectáculos, para dar lugar a um ambiente de crenças primitivas e receios sociais face ao sobrenatural de um O Nome da Rosa (1986), ou a vida de um santo mártir que poderá ser visualizada – e parodiada – em títulos como Simão do Deserto (1965). A vida de Maomé e os ensinamentos do Islão poderão ser abordados com algum rigor científico no filme A Mensagem (1977), vindo-se a compreender as disparidades com o cristianismo, sendo que para abordar o choque político que surgiu entre ambos, não será preciso ir mais longe do que para o clássico recente O Reino dos Céus (2005). Desaparecem os monges copistas, que de olhar expectante no seu observador ausente, vão tracejando linhas num caderno, para que assim aconteça com pessoas reais em movimento. Por fim até podemos fugir um pouco, recriando, quebrando a barreira temporal, e imaginando um conflito de mentalidades fictício que poderia existir se homens do período medievo visitassem as nossas metrópoles actuais, usando-nos de filmes como O Navegador (1988), ou Os Visitantes (1993).

Lembro-me de durante o meu ensino secundário, uma professora de História nos ter levado a ver o filme O Nome da Rosa e até hoje vou notando que essas imagens vão redefinindo o meu imaginário medieval – muitas vezes sem me aperceber, vou beber nelas, buscando inspiração para imaginar qualquer cena deste período que se nos depara nos livros, moldando-as de modo a que façam sentido para mim. Assim poderá acontecer com os alunos.

Há contudo que ter bastante cuidado com as imagens, pois se é notório o seu carácter educativo, também podem induzir em erros. É sabido que não existem filmes medievais sendo todos eles reconstituições dos últimos séculos, sobre um período que já passou há muito e do qual não existem espectadores vivos. Lidamos com uma iconografia bastante falível e subjectiva. A grande desvantagem dos filmes para o nosso objectivo é o facto de apresentarem quase sempre modos de pensar modernos, e por vezes ideais políticos anacronicamente escondidos, ou pura fantasia – boa parte das películas tende mais à emoção do público do que à criação de uma imagem minimamente correcta sobre o período retratado. Hollywood, onde têm sede as produtoras de muitos destes filmes, sempre se definiu como uma «máquina de fazer sonhos» atenta mais ao lucro, do que ao meio educativo. Servir-nos-á muito, mas tenhamos as devidas reservas.

Um ponto menor, mas de somenos interesse, é poder ver como a Idade Média tem sido abordada ao longo da história do cinema, a forma como é retratada e os seus conceitos de estética sempre ligados ao período em questão.

Sem a mínima dúvida que o cinema moderno com grande tendência para um pseudo-realismo acelerado, focando batalhas sangrentas e heróis que apesar de tudo, apresentam um espírito critico hodierno permitindo ser identificados com um público actual, não devem muito aos heróis de épocas mais recuadas, de fervor religioso mais demarcado e por vezes anacrónico, de amores impossíveis ou de força musculada, conforme o zeitgeist da época em que foram realizados.

Ir ao cinema e ver o último êxito de bilheteira será algo muito diferente de ver em casa um filme de culto de um realizador como Sergei Eisenstein, Igmar Bergman, Frantisek Vlácil ou mesmo Manoel de Oliveira no caso português. Ver um filme americano é algo diferente de visualizar um filme europeu, da mesma forma que o é, entre o filme de uma grande produtora com vastos recursos tendendo a um “politicamente correcto”, ou uma produção independente.

No final ainda há lugar para brincarmos um pouco com a Idade Média, visualizando filmes como Percíval, o Galês (1978), O Dragão do Lago de Fogo (1981) ou A Mulher Falcão (1985), invocando temas mitológicos e fabulações que com o devido sobreaviso e tentativa de inclusão nos programas poderão fazer com que os alunos se interessem pelo tema em questão.

Para além destes há uma enorme quantidade de títulos pertinentes nos quais pouco me deterei por se referirem a temas ou episódios históricos bastante desarticulados dos programas escolares portugueses. Se acaso quiséssemos traçar a história medieval de países como a Inglaterra, não nos faltariam títulos que referir. Infelizmente existem bastante poucos para a história peninsular com a sua situação de Reconquista, dos quais posso apenas destacar El Cid (1961), O Vale das Espadas (1965) e mais concretamente para o caso português ‘Non’ ou a Vã Glória de Mandar (1990).




A Utilização dos Recursos na Sala de Aula


A utilização destes recorsos é talvez o ponto mais difícil, uma vez que o período lectivo não permitirá a rodagem de muitos filmes na íntegra. Desta forma tenderá que recair no encorajamento dos alunos a visualizá-los em casa, ou mesmo através de outras actividades como clubes ou semanas da disciplina. Todavia sempre nos restará a hipótese de fazer rodar um ou dois, conforme o tempo que consigamos disponibilizar, e usar excertos de outros em apresentações de Powerpoint, permitindo ilustrar de uma forma mais movimentada alguns episódios que queiramos salientar. Convêm fornecer sempre aos alunos o título do filme do excerto que é mostrado, assim como o realizador e o ano de edição, uma vez que se este lhes captar a atenção, mais facilmente o poderão encontrar e visualizar em casa. Algo que se torna fácil e uma actividade cada vez mais rotineira com os novos meios de informação.
Uma lista de sugestão de títulos e talvez a utilização deles em actividades extracurriculares poderão trazer alguns sucessos.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O Fabrico e a Venda de Pão nos Centros Urbanos Medievais


Iluminura medieval representando um forno de pão.


Introdução: O Pão na Idade Média

O pão é um alimento que sempre permeou a marcha da humanidade, debatendo-se ainda hoje quais as suas verdadeiras origens. O seu cultivo já era praticado nas poleis gregas e pelo império romano, contudo foi só na Idade Média com o escasseio de outros meios como a carne[1], que este produto compôs a base da alimentação das populações, sendo o grande responsável pelo crescimento demográfico deste período.
Os documentos deixam algumas dúvidas sobre a verdadeira importância que o pão representava. Contudo por via indirecta são-nos dadas algumas pistas, como as crises alimentícias e a ligação que estas detinham com os maus anos agrícolas, ou com a insuficiência de trigo nos grandes centros urbanos, levando-nos a crer que a falta de pão era sinónimo de fome e morte por todo o medievo. Iria Gonçalves, fazendo um estudo sobre a alimentação de um grupo de emissários enviados de Navarra a Sevilha em 1352, concluiu que o pão e o vinho ocuparam cerca de 83% das despesas gastas com bens alimentares[2].
No fabrico do pão, o trigo é o cereal por excelência e cujo alqueire regulamenta o seu preço, sendo que é a falta de trigo que leva a crises como as fomes de 1480. Menos referenciados nos documentos, também outros cereais como a cevada e o centeio eram utilizados na panificação – aqui não nos podemos esquecer da tendência medieval pelo pão de mistura e pelo facto de muitas vezes os cereais serem semeados juntos, sendo impossível separá-los depois da colheita[3]. Será interessante salientar a perspectiva de Massimo Montanari ao dizer que a forte introdução destes cereais nos sécs. IV e V se deveu essencialmente às necessidades pela falta de trigo em certas alturas do ano[4]. Ora esse foi um problema que claramente atravessou todo o período medieval, sendo o uso de cereais de segunda, uma forma de remediar a carestia de trigo.
Do cereal (fosse ele de que tipo fosse) era feita a farinha e aqui entravam os mesteres de moleiro ou atafoneiro que eu mais adiante explicitarei. No fim da linha surgiam-nos as padeiras e forneiras que respectivamente amassavam e coziam o pão nos centros urbanos como Lisboa, residindo sobre essas mesmas a essência deste estudo.
Sendo a moagem um trabalho por excelência masculino, eram as mulheres que dominavam a panificação e o seu papel como fabricadoras deste alimento não era de desprezar, como já ficou dito, na cidade medieval. Mais do que um simples alimento, o pão era também um produto sacralizado e de devoção, ou não fosse ele a representação do Corpo de Cristo, estando tão presente em orações e celebrações católicas. Tinha uma forte conotação com o sagrado e portanto a sua confecção era um sinal de enobrecimento. Nesta esteira, Maria Helena da Cruz Coelho refere a viúva de um homem importante de Loulé, «molher rica e onrada», a quem foi dado o privilégio de poder fazer pão alvo, honorabilidade que outras em situações semelhantes não obtiveram[5].
Ficará deste modo compreendido, embora talvez de forma sucinta, que o pão não era apenas o alimento fulcral para a sobrevivência destes povos, mas que a sua importância assentava também numa base de valores rígida como a religião destes séculos.


O Trigo


1)    A Demanda do Cereal

Não me posso expressar correctamente sobre a panificação, se não deixar claro como se dava a obtenção do cereal neste período, nesta esteira vou começar neste capítulo por falar sobre o abastecimento a nível local e nacional destes farináceos.
Como já foi dito atrás, o trigo era o cereal notável da panificação, sendo que este era quase sempre o destino que aquele obtinha, não excluindo, é claro, ocasionais vezes em que engrossaria algum caldo, ou faria empadas para as famílias mais abastadas[6]. Seriam raros estes casos, pois o trigo mostrou-se de difícil obtenção por toda a Europa mediterrânica, mesmo em anos considerados de boas colheitas, e não era comum ser desperdiçado nesse tipo de usos.
Quanto a outros cereais, como a aveia e a cevada, também entravam na panificação, mas o seu uso recaía sobretudo na alimentação dos animais (geralmente cavalos). Não menosprezemos a sua importância, pois eram estes os meios de transporte e não é à toa que A. H. Oliveira Marques compara a importância da cevada na Idade Média com a do carvão no final do séc. XIX[7], assim como que a par do milho e do centeio, esta substituiu muitas vezes o trigo em épocas mais carenciadas. Por outro lado, também não era costume habitual do lavrador do campo, poder comer o dito pão alvo, feito a partir do cereal nobre bem refinado, todos os dias da semana, tendo de recorrer muitas vezes aos pães meados, terçados ou quartados[8] feitos da mistura, guardando os outros, quando os havia, para os dias santos. Contudo, pelo que nos é levado a crer na falta de referência a estes cereais em documentos, o pão da cidade era um caso distinto.
Para que pudesse haver trigo por todo o reino, pois a produção não era auto-suficiente, ter-se-ia de se recorrer à importação do estrangeiro (sobretudo da Bretanha, com base no que consultei[9]), deixando sair ouro para que entrasse cereal. A fome levava a que não se olhasse a meios e o problema foi tanto mais grave nos grandes centros urbanos como Lisboa e o Porto, que por várias vezes tiveram que alargar os seus circuitos de abastecimento. Até mesmo as ilhas, olhadas pelos cronistas como os celeiros do Continente, também elas sofreram graves crises cerealíferas e tiveram de desenvolver métodos de maneira a reduzi-las[10].
Em tudo isto, Santarém foi talvez o único concelho de excepção, com as terras férteis da Valada e da Golegã, banhadas pelo Tejo que lhes trazia sedimentos (a famosa Lezíria), permitindo-lhes fartas colheitas. Esta posição de abundância mostrou-se em 1352, nas cortes régias: quando todos os outros concelhos se dirigiram ao rei, contestando uma medida que fora aprovada permitindo a saída de pão e vinho para fora dos seus termos, Santarém foi a única que ficou à margem da discussão[11]. Em 1498, mais de cem anos depois, ela mesmo se vangloriou que nesta «ujlla ha muyta abastanca e tanta que nestes Regnos e aJnda na espanha dizem que nom ha outra mais abastada»[12].
Outros não tinham a mesma sorte e o trigo teria de vir nos navios de mercadores, encarecendo conforme a distância percorrida a fim de satisfazer o crescente número de bocas vazias. Quando, durante a escassez de 1468-70, foi sabido em Loulé que chegara a Lisboa um carregamento de trigo da Bretanha, foi logo enviado um emissário ao rei, pedindo mil moios. Tanto quanto se saiba o cereal nunca chegou ao Algarve, mas a promessa ficou no ar[13]. Por toda a Europa se difundiu a prática da diminuição do peso do pão, tentando-se manter o seu preço, de acordo com as oscilações do preço do trigo – o que nem sempre se conseguiu – sendo esta uma medida que pouco afectava em tempos normais, e que ajudava as populações a nível psicológico em tempos de escassez. Não era incomum recorrer-se a medidas destas em situações dramáticas, aliás, chegou-se ainda a outras mais drásticas como o tabelamento de preços máximos e o racionamento.
Só a título de exemplo, quando em 1418 as culturas ficaram destruídas pelas rigorosidades desse Inverno, o concelho de Lisboa isentou de impostos durante um ano, todos os carregamentos de cereais e legumes[14]. Crises destas foram muito comuns e algumas delas perduram por alguns anos como aconteceu na década de oitenta do séc. XV. Para além de tudo isto, há ainda a ter em conta o débil sistema de transportes, que não sofrera grandes arranjos desde o período romano e só se tornara preocupação muito mais tarde no séc. XIX[15]; tal como os débeis métodos de conservação dos alimentos, aliados à existência de ratos e outros parasitas que degradavam boa parte do cereal, quando não causavam outros problemas de saúde pública.
Passado por tudo isto, o trigo chegava finalmente à cidade (como Lisboa ou o Porto), onde era vendido nos locais próprios, sujeito às medidas de controlo pelos almotacés que prezavam para que os direitos dos consumidores não fossem desconsiderados, assim como pelo bom funcionamento da cidade. Nos casos de maior carência, quando a procura era tanta, assim como os atropelamentos e a especulação dos vendedores, dever-se-ia tornar difícil fazer cumprir as ordens do poder central. Com base naquilo que fui estudando ou li na feitura deste ensaio concluí que deveria ser um trabalho árduo conseguir manter a ordem numa cidade medieval e em particular nos seus vendedores; um exemplo prático do que acabo de falar terá sido a resposta de D. Fernando em 1372, a uma queixa dos almotacés do Porto, onde estes supostamente alegam serem alvo de ameaças das padeiras e dos carniceiros da Rua do Almirante, afirmando ter «medo e Recyo de Reçeberem dampno das pessoas que os asy ameaçam»[16].
Fora estes percalços, voltemos à chegada do trigo à cidade e à sua comercialização. A próxima paragem será a transformação em farinha, através da qual é feito o meu objecto de estudo – o pão.


2)    A moagem

Chegado à cidade, o cereal seria moído, dando lugar às profissões de moleiro e atafoneiro. Não se sabe ao certo se estas também eram praticadas no ceio familiar à semelhança das padeiras, contudo, mesmo que o fossem, não deveria ser uma ocorrência comum. Quanto aos tipos de maquinaria utilizada, a documentação medieval faz referência a vários tipos de moinhos como as atafonas movidas por força animal, os moinhos de água (e também azenhas) e os moinhos eólicos.
Os moinhos de água já eram conhecidos dos romanos e ter-se-iam difundindo pela Península Ibérica, de acordo com Oliveira Marques[17], através da sua expansão, só dando origem às azenhas (que se distinguem pela verticalidade da roda) talvez pela posterior arabização da Península no séc. VIII, pois tanto quanto se saiba os romanos não as conheciam; quanto aos moinhos de vento, terão sido mais tardios e a sua difusão na Europa terá tido lugar através das Cruzadas. Embora haja referências à sua existência em documentos do século XII, crê-se que mesmo no séc. XIV ainda representassem uma raridade.
Ao contrário do que acontecia com os fornos, que se encontravam na maioria nas mãos do rei ou de senhores laicos e eclesiásticos que os fretavam, no caso dos moinhos não se conhece este tipo de monopólios. Havia casos em que isso acontecia, contudo também os havia em mãos de particulares.
Contudo, ao que tudo indica, as atafonas teriam sido as mais utilizadas nos meios urbanos, existindo cerca de 800 em Lisboa, distribuídos por 400 casas, duas por cada, no ano de 1552. João Brandão calcula a produção que provinha destas em cerca de 44560 moios de trigo por ano, adiantando Oliveira Marques que equivaleria esta, a cerca de 80% da produção da cidade[18]. O grande alastramento deste tipo de maquinarias levou a que D. Afonso V as proibisse em 1452, pelo excesso de bestas utilizadas, que suscitavam carestia de mantimentos. Contudo em 1454, vê-se obrigado pelas circunstâncias a legalizá-las, sob várias condições, e onde em primeiro lugar, o dono da atafona deveria semear «huu quarteiro de çevada» por cada besta que possuísse «pera sseu soportamento della»[19].
Mas para se conseguir bom pão, não bastava o engenho utilizado, mas também um bom profissional de serviço que conduzisse a maquinaria. O salário dos moleiros era geralmente pago em géneros, de acordo com o estudo feito por Iria Gonçalves[20], cerca de 6% ou 7% da sua moedura. No caso dos atafoneiros, de acordo com o mesmo estudo, este fixava-se em dinheiro. Ao que tudo indica, a farinha das atafonas tornava-se mais cara, mas como se tem vindo a achar, a qualidade deveria ser melhor.
Quanto às mós utilizadas, também era feita alguma distinção, que a par de tudo isto contribuía para a maior ou menor qualidade do pão: como as mós «segundeiras», feitas de granito ou outra pedra rugosa e que eram geralmente utilizadas para moer outros cereais, fazendo também a farinha para o dito «pão de segunda», sendo assim as mais comuns; ou as mós «alveiras», feitas de quartzito para moer a farinha do «pão alvo»[21]. O elevado número de atafonas na cidade de Lisboa, deveria contribuir para o frequente transporte destas mós pelas suas ruas, danificando as calçadas, pois em 1491 o rei proíbe que estas – assim como quaisquer outros objectos de peso – fossem transportadas pelo chão da cidade[22].
Finalmente, quanto ao tabelamento do preço da farinha feita pelas atafonas, este andaria à volta dos dois e meio a três soldos por alqueire[23] de trigo. Em 1469, D. Afonso V promulga que o preço do alqueire não ultrapasse os três reais[24]. De acordo com outros trabalhos que consultei[25], este era uma variável inter-relacionada com as oscilações do preço do cereal. Para tal iam sendo feitos ensaios, como um referido por Iria Gonçalves realizado em Évora em 1393[26], nos quais eram feitos testes na presença das grandes autoridades da cidade, atribuindo-se no final um preço considerado justo por cada alqueire.
Quem ultrapassasse este preço, enganando o cliente, era penalizado pelos almotacés de acordo com o estabelecido. No mesmo ano de 1469 que referi há pouco, quem levasse em Lisboa, mais de três reais por alqueire, teria uma penalização de cem reais pela primeira vez, 150 pela segunda e duzentos pela terceira, dos quais «metade seja pera as obras da çidade e a outra metade pera quem os acusar»[27].


A Panificação



Obtida a farinha, o passo seguinte ia caber geralmente a dois grupos profissionais: as padeiras e as forneiras. O pão poderia muitas vezes ser confeccionado em casa, tanto pelas mulheres de família, como por criadas (sempre entregue no fim à forneira para o cozer), destinando-se ao consumo próprio. Nesse caso saltava-se a categoria profissional das padeiras, cujo papel na cidade medieval não se parece subtrair por estes casos, como nos é dado a entender pela documentação, revelando-se até o contrário: a sua existência era vital.

Tão vital que tanto a legislação de D. Duarte como a de D. Afonso V, proibiam que esta profissão, depois de iniciada, não fosse interrompida antes do mesmo dia do ano seguinte[28], velando para que existissem sempre profissionais de serviço, para abastecer a cidade.

Enquanto a moagem, que referi há pouco, era um trabalho masculino por excelência, a panificação, sempre muito conotada com o trabalho doméstico, estava grandemente entregue às mulheres, e onde estas eram rainhas. Ao longo de toda a Idade Média, o papel da mulher sempre esteve muito conotado com o de Eva e com o pecado, sendo-lhe interditos os papeis religiosos, guerreiros, ou mesmo os cargos públicos, onde era necessária coragem, força e decisão, factores que à luz da época se considerava não existir neste sexo[29]. A própria sociedade tendia a desencorajar a mulher de trabalhar fora de casa, entrando em contacto com o público, e apesar de isso acontecer com as esposas de grandes senhores (de origem nobre ou vilã) que não precisavam de o fazer, quase só saindo de casa para ir à missa, a verdade é que noutros meios mais desfavorecidos, tal não poderia acontecer, tendo a mulher de trabalhar lado a lado com o homem na tentativa de equilibrar a economia doméstica. Neste contexto, as mulheres iriam procurar mesteres onde não fosse necessária grande força física como acontecia com o fabrico de pão, ou que estivessem algo relacionados com o serviço caseiro, sendo que grande parte delas iriam servir como criadas domésticas. Outras vezes eram vendedeiras, segundo o estudo de Maria Helena da Cruz Coelho[30], eram as mulheres que dominavam o comércio da alimentação, desempenhando grandemente as funções de peixeiras, regateiras, fruteiras, verceiras, entre outras.

Eram as padeiras que iriam vender o seu pão em locais destinados à venda de acordo com a regulamentação, embora se creia com base no número de queixas, que esta devia ser fortemente transgredida e que muitas vezes se escolheria outros locais, onde o lucro pudesse ser tanto maior, como em 1457[31] é contestado acontecer na Rua da Padaria em Lisboa, bloqueando muitas vezes a passagem aos transeuntes, ou em 1372 no Bairro do Almirante no Porto[32]. Noutros casos, tapariam as cestas e venderiam de porta em porta. Quanto às fraudes no peso dos pães, em 1469 D. Afonso V ordenou que fossem obrigadas a pagar 30 reais da primeira vez que o fizessem, 50 pela segunda, sendo que se o fizessem pela terceira vez, seriam postas na picota[33], expostas ao vexame popular. Em alguns casos, o pão apreendido seria entregue aos prisioneiros da cidade[34].

Em todo o caso eram vigiadas pelos almotacés, assim como todo o pequeno comércio medieval. Era a estes que cabia o bom andamento do processo citadino: especialmente tentavam que não fossem praticadas fraudes nos preços ou na qualidade dos produtos, nem que fossem fortemente desrespeitadas as normas de higiene[35]. Era esta a missão que lhes era incumbida pelo poder central, mas também que lhes era esperada pelos consumidores[36].

Contudo, ainda antes do pão ser posto à venda, teria que passar pela cozedura e aí entrava a classe das forneiras. Como os fornos estavam em monopólio do monarca, ou de outros senhores, e entregues a particulares a título de aforamento, como já tinha sido dito, afastava-se nesse caso, o fabrico doméstico. Acontece que nem sempre eram estes arrendatários, aqueles que lá trabalhavam, mas por sua vez contratavam forneiras (também eram geralmente mulheres) que lá trabalhavam mediante um pagamento. Noutros casos estas poderiam ser as suas próprias esposas. É referido no ano de 1460[37], um tal Afonso Martins, que era ourives (e que provavelmente trabalhava na sua profissão), trazia um forno aforado ao rei perto da Judiaria, mas que era dirigido por uma forneira. Este mesmo homem se queixou que a forneira, assim como as moças que a ajudavam, eram coimadas de irem levar o pão à dita Judiaria, onde residia grande parte dos seus fregueses. Poder-se-á concluir através disto, que seria regra, as donas de casa levarem o pão amassado ao forno mais próximo para que fosse cozido, mediante um pagamento – que falarei em seguida –, e que no final da cozedura, este era levado por moças de recados (ou mesmo pelas próprias forneiras) até às casas dos respectivos clientes. Outras vezes poderão ter sido mesmo estas, a fazer o serviço de recolha dos pães. Meras suposições, não encontrei nada na documentação que me permita provar ou descartar esta teoria.

Quanto ao modo de pagamento destas mulheres, este era feito geralmente em géneros: a dita “poia”, que era um pão geralmente maior uma onça e meia que os demais, embora noutros casos o pudesse não ser[38]. Em Lisboa, uma forneira não poderia levar mais de uma poia por cada quinze pães, arriscando-se a ter de pagar uma renda[39] que ia para as obras do concelho. Torna-se difícil saber quais os lucros de uma forneira, estes dependendo muito do numero de fornadas e do local onde estava o forno, e sendo que também não é clara a documentação quanto a outros custos. Contudo Iria Gonçalves argumenta que andaria à volta dos 5%[40].

Apesar de todo este controlo e medidas apertadas, não haveria mal algum, como aliás foi expressamente promulgado[41], a uma dona de casa a que lhe tivesse sobrado pães, vendê-los na rua. As forneiras poderiam também vender as suas poias como tal, desde que estas fossem maiores uma onça que os outros pães, caso fossem menores, deveriam pagar 5 soldos, sendo obrigadas a vende-las pelo seu verdadeiro peso.



Concluindo…

Eram as padeiras que alimentavam a população. Muitas vezes o pão poderia ser feito em casa, mas isso não aconteceria, talvez pela carência de trigo e o açambarcamento a que este era sujeito pelas profissionais; outras causas podem ser o facto de ser mais barato comprar o pão já feito do que fazê-lo em casa, ou mesmo a polvorosa vida urbana medieval não permitir a despensa de tempo a muitas mulheres para o seu fabrico caseiro. Contudo, o pão era alimento primordial e não poderia faltar nas mesas, aparecendo assim as padeiras profissionais.


Bibliografia

Fontes

·         Livro das Posturas Antigas, transcrição paleográfica de Maria Teresa Campos Rodrigues, Câmara Municipal de Lisboa, 1974

Obras Consultadas

·         COELHO, Maria Helena da Cruz, A Mulher e o Trabalho nas Cidades Medievais Portuguesas, Separata da Revista de História Económica e Social, Coimbra, 1987

·         GONÇALVES, Iria, A Propósito do Pão da Cidade na Baixa Idade Média, História da Alimentação, Turres Veteras IX, Torres Vedras, 2007

·         MARQUES, A. H. Oliveira, Introdução à História da Agricultura em Portugal, Edições Cosmos, Lisboa, 1978

·         GONÇALVES, Iria, Acerca da Alimentação Medieval, Separata da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, IV, 1978

·         MONTANARI, Massimo, Estruturas de Produção e Sistemas Alimentares, História da Alimentação – 1) Dos Primórdios à Idade Média, tradução de Maria da Graça Pinhão, Terramar, Lisboa, 1998



[2] Idem, Acerca da Alimentação Medieval, Separata da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, IV, 1978
[3] Idem, A Propósito do Pão da Cidade na Baixa Idade Média, História da Alimentação, Turres Veteras IX, Torres Vedras, 2007, pág. 65
[4] MONTANARI, Massimo, Estruturas de Produção e Sistemas Alimentares, História da Alimentação – 1) Dos Primórdios à Idade Média, tradução de Maria da Graça Pinhão, Terramar, Lisboa, 1998, pág. 256
[5] COELHO, Maria Helena da Cruz, A Mulher e o Trabalho nas Cidades Medievais Portuguesas, Separata da Revista de História Económica e Social, Coimbra, 1987, pág. 59
[6] GONÇALVES, Iria, A Propósito do Pão da Cidade na Baixa Idade Média, História da Alimentação, Turres Veteras IX, Torres Vedras, 2007, pág. 61
[7] MARQUES, A. H. Oliveira, Introdução à História da Agricultura em Portugal, Edições Cosmos, Lisboa, 1978, pág. 227
[8] Idem, ibidem
[9] Especialmente GONÇALVES, Iria, A Propósito do Pão da Cidade na Baixa Idade Média, História da Alimentação, Turres Veteras IX, Torres Vedras, 2007
[10] Idem, ibidem, pág. 59
[11] Idem, ibidem, pág. 54
[12] Idem, ibidem
[13] Idem, ibidem, pág. 60
[14] MARQUES, A. H. Oliveira, ob. cit. pág. anterior, pág. 267
[15] Idem, História de Portugal, vol. II – Das Revoluções Liberais aos Nossos Dias, Palas Editores, Lisboa, 1974, págs. 13 e 14
[16] No original a data é «myll e quatroçeentos e dez annos» (1410), contudo ser-lhe-ão tirados 38 anos pela conversão dos calendários (1410-38=1372). Livro das Posturas Antigas, transcrição paleográfica de Maria Teresa Campos Rodrigues, Câmara Municipal de Lisboa, 1974, fl. 117v, págs. 318 e 319
[17] MARQUES, A. H. Oliveira, Introdução à História da Agricultura em Portugal, pág. 192
[18] Idem, Ibidem, pág. 191
[19] Livro das Posturas Antigas, fls. 16 e 16v, págs. 43-46
[20] GONÇALVES, Iria, A Propósito do Pão da Cidade na Baixa Idade Média, pág. 63
[21] MARQUES, A. H. Oliveira, ob. cit., págs. 196 e 197
[22] No original «mjll e iiij lxxxj annos». Livro das Posturas Antigas, pág. 138
[23] Do árabe al-kayl, que designava as cestas que eram colocadas no dorso dos animais. Como medida foi bastante variável, podendo ir desde cerca dos 13 litros até perto dos 20, dependendo da região e do período em questão. Neste caso penso que anda à volta dos 13/13,5L. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alqueire (03/01/10 - 18:48)
[24] Livro das Posturas Antigas, fl. 14, págs. 36 e 37
[25] Nomeadamente GONÇALVES, Iria, Propósito do Pão da Cidade na Baixa Idade Média.
[26] Idem, ibidem. De acordo com a autora, é dos poucos ensaios que se tem conhecimento em Portugal, contudo sabe-se da existência destes noutros países.
[27] Livro das Posturas Antigas, fl. 14, págs. 36 e 37
[28] GONÇALVES, Iria, ob. cit., pág. 64
[29] COELHO, Maria Helena da Cruz, A Mulher e o Trabalho nas Cidades Medievais Portuguesas, pág. 45
[30] Idem, ibidem
[31] No original «iiij Lbij» que será 457, penso tratar-se apenas de um lapso na escrita, ou uma abreviatura, sendo a data 1457. Livro das Posturas Antigas, págs. 150 e 151
[32] Livro das Posturas Antigas, págs. 318 e 319
[33] Livro das Posturas Antigas, pág. 36
[34] Livro das Posturas Antigas, pág. 224
[35] A alimentação do meio urbano sempre se mostrou uma preocupação, e continua a sê-lo nos nossos dias, mesmo sujeita a processos de controlo muito mais sofisticados. Se no meio rural a sua origem era conhecida, na cidade era sujeita a muitos intermediários (que visavam algum lucro) entre esta e o consumidor – como aliás, deixo bem claro durante este capítulo.
[36] GONÇALVES, Iria, ob. cit., pág. 70
[37] Livro das Posturas Antigas, págs. 35 e 36
[38] GONÇALVES, Iria, ob. cit.
[39] No original «R(ta)». Tratando-se de uma renda, não é especificado o valor da mesma. Livro das Posturas Antigas, pág. 253
[40] GONÇALVES, Iria, ob. cit., pág. 71
[41] Livro das posturas Antigas, pág. 102